20 Outubro 2011

Desamparo

É muito interessante manter um blog, ainda mais quando não há compromisso nem espectadores. Quando ninguém te espera, sua ausência não dói. O melhor de tudo é ter a liberdade de dizer o que se pensa, se passa, se sente, sem limitações. É como conversar com o vento, vide Robert Fripp, ao passo que o vento te ouve e apaga, ao contrário dos textos. Temores e aflições que devem se manter nas profundezas para não causar estranhamento, vez que as pessoas se armam de argumentos que justificam sua felicidade na nossa implacável sociedade. Prefiro gritar a ninguém o que eu preciso gritar do direcionar uma idéia. Serei, com certeza, julgado por pseudo-revolucionário, pseudo-moralista, pseudo-efêmero, pseudo-utópico, depressivo, bipolar.... Tantas tarjas a um remédio que sequer cura, senão envenena. Opto por desenhar em mim um sorriso, empapuçar as conversas com piadas jocosas e informações inúteis. Por que? Porque, da essência, ninguém quer saber. Preocupados em criar sentimentos e fantasias bem na cara do óbvio. Nascemos para nada e morreremos por nada, iremos a lugar nenhum até que este planeta, envenenado, se livre de nós, figuras tortas de desejos infundados, insípidos.


Me perguntam por que motivo realizo, indiscriminada e reiteradamente, hábitos nocivos à minha existência. Respondo, tão logo: Se o único final é a morte, por que teme-la? Eu temo em não sentir. Sentir a dor que deveras sente (permita-me a alusão), sentir a fugaz felicidade que, qual orgasmos, nos toma tempo, sanidade, energia, e nos abandona. Eu temo por não sentir o odor de merda, suor e sangue que paira, por isso fumo. Eu temo por poder olhar as coisas que não quero ver, mesmo assim sempre presentes, e nada sentir, por isso me embreago. Eu temo por não poder ver a vida com os olhos de um lunático que dor nenhuma sente, por isso me entorpeço.



A cidade fede, as pessoas me enojam, as palavras se machucam, a existência, esta arremedo de ficção tão adorado pelos imbeciis, se mostra pobre demais, confrontado ao universo de prazeres que nos é oferecido. Tudo é muito pouco, muito pobre, muito vil.



Pobres são aqueles que acreditam que o caráter é preceito fundamental.

Pobres são aqueles cegos que seguem qualquer direção que lhes é apontada.

Pobre diabo sou eu, que vê, ouve, toca, incapaz de sentir além da carne, além da dor e do prazer.

Quem?

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BH, MG, Brazil
Uma gota d'água no oceano